terça-feira, 23 de novembro de 2021

Doce, Yara, fica.

 PARTE 1

    Yara estava sentada no ponto de ônibus esperando chegar o ônibus das 18:00h para ir pra casa. Tinha vários outros alunos ao seu redor, mas ela nunca se importou em conversar com eles. Tinha uma menina quieta, que nem ela, que as vezes tinha vontade de perguntar "galera barulhenta, né?". Mas achava que podia estar tendo uma impressão errada dela, pois podia ser que ela goste desse tumulto, só que no ponto de ônibus, e depois de cinco horas de aula talvez não fique tão empolgada. 
    Então Yara ficava na dela, olhando para o seu AllStar preto de cano alto, como de costume. E gostava disso, da sua solicitude. Claro, que isso depois do que aconteceu. Porque, antes, sempre gostava de estar acompanhada. 
    E como sempre, o ônibus chega, Yara vai para a fila, paga o cobrador, passa a catraca e vê algum acento livre na janela. E sempre tem lugar, isso porque muitas das vezes ela que começa a formar a fila.
    Então ela se joga na cadeira, pega seus fones de ouvido de fio e conecta no celular e coloca alguma música deprimida. Mas tem vezes que ela coloca um rock, ou rap, etc. Ela é bem eclética na verdade. Mas hoje em especial ela colocou a banda Sons of the East para tocar. Por causa da chuva e tal, ela achava que combinava. E também porque ela sempre escutava músicas assim, ou Elvis Presley. Yara até curtia, mas não escutava tanto quanto ela
    Eu não disse o nome dela, porquê em mim também dói dizer, acredito que para Yara ainda mais. Como vocês não sabem e não a conhecem, irei apresentar. Ela se chamava Melanie. E as duas sempre se referiam uma a outra como Mara. Acho que é a junção dos dois nomes. De fato, não lembra quando surgiu esse apelido entre as duas. Algumas vezes tentava lembrar, mas acredito que a minha memória foi desenvolvendo junto com a de Yara, por isso muitas coisas não lembro da sua infância. 
    Yara tirou os olhos por um instante da janela e olhou para o garoto que passava no corredor. Bem, aquilo pareceu ser mais atrativo do que olhar pela janela as pessoas entrando no ônibus. E para sua surpresa, ele sentou do seu lado. Então imediatamente ela voltou o olhar para janela. Yara é uma pessoa bem atrevida em algumas situações, mas naquele momento não quis ser. Já que ela podia muito bem ficar olhando para ele para perceber como ela achou sua presença atrativa. No entanto, não estava a fim. Ou porque não queria ter o risco de passar vergonha. 
    Para a minha surpresa, acredito que não foi só ela que teve esta impressão.
    - Gosto dessa banda - ele disse para ela amigavelmente - Consegui escutar daqui.
    Ele sorriu, fazendo Yara se perguntar como alguém tinha um sorriso tão perfeito. Ele era um galã juvenil, de fato. Só que Yara também é muito bonita. Muitas vezes ela acreditava que não, depois do acontecido, sua auto estima rebaixou num nível nada agradável. Ela tinha uma beleza natural, um tanto angelical, que não precisava se cuidar muito, isso era o seu diferencial. No fundo ela sabia disso, por isso não se preocupava em se maquiar ou cuidar demais do cabelo. 
    - Legal - ela respondeu com um sorriso fraco. Ok, ela estava mais envergonhada do que o comum. Acho que é porque não está acostumada com esse tipo de garoto puxando assunto com ela. Os meninos que conversam com ela normalmente é o nerd em química ou o que curte jogar ping pong nas aulas de educação física. 
    - Desculpa incomodá-la - ele provavelmente notou que ela estava estranha. De certo achou que foi a inconveniência dela de dizer apenas "legal". Foi meio que um "legal, estou nem aí". 
    - Não precisa se desculpar - Yara responde por fim, mostrando que gostou que ele puxou assunto com ela. - Eu também gosto. Quero dizer, da banda. Quer escutar?
    Uau. Agora sim consegui enxergar a Yara de alguns anos atrás. 
    - Adoraria. - ele responde e se acomoda melhor no acento para que o fio chegue melhor até ele.
    Então os dois começam a escutar e ficam em silêncio. O ônibus já tinha dado partida, e daqui a alguns minutos ela estaria em casa. Por isso decidiu puxar assunto com ele, até porque o achou bem interessante. 
    - Como você se chama? - ela pergunta, mas da pra sentir que ela ainda está com uma certa timidez. Seu coração está acelerado, com dificuldade de respirar e a voz cansada. 
    - Jack - responde ele gentilmente - E você?
    - Yara. - diz ela com um sorriso torto - Você estuda na escola Maria Tereza também?
    - Não, eu fui só pegar meu histórico escolar, pois a faculdade que vou estudar precisa. - ele responde de forma calma e simpática. Ele era muito encantador. Parecia que fazia muito disso. Sabe, conversar com garotas estranhas. Aquilo a deixou mais insegura. - Vou estudar na Unimar, conhece?
    - Sim, parece ser uma faculdade muito boa. - ela comenta e fica interessada em que curso ele iria fazer, então ela pergunta.
    - Vou fazer Direito - Jack responde - Meu pai quer muito, então irei fazer. 
    - Ah, que bom. - ela responde, mas sente que não era isso que ele realmente gostaria de cursar - E se você fosse escolher, que curso faria?
    Ela foi ousada na pergunta, até porque não sabe se ele também queria cursar. Mas arriscou na sua intuição, e se incomodou de certa forma, de ele estar sendo forçado a fazer algo que não gostasse. Ele demorou alguns segundos para responder, acho que estava pensando realmente se colocava esse sentimento para fora e dar uma má impressão do seu pai. 
    - Eu gostaria de fazer Ciências Biológicas - seus olhos mudaram ao falar o nome, até ficaram mais claros do que já são. É, a sua intuição estava certa. - Mas meu pai não me força, sabe? Ele só quer o meu bem. E não quero decepcioná-lo...
    - Entendo - ela acenou com a cabeça de forma condescendente. - Espero que você goste do curso então. 
    Jack soltou um sorriso fraco e agradeceu. 
    - É aqui que desço - diz ele tirando o fone delicadamente - Obrigada por compartilhar a música, temos que fazer mais isso. 
    - Sim - seu coração pareceu que ia sair pela boca no momento que escutou aquilo. Ele queria vê-la novamente? Se não, ainda assim gostou do comentário. Mas fingiu indiferença, obvio. - Até uma próxima, Jack. 
    Então ele se afastou e desceu do ônibus. E lá de fora ele acenou para ela com aquele sorriso mais perfeito que Yara já viu. E ela, claro, sorriu indiferente. Por que ela continua fazendo isso? Tratando ele indiferente mas no fundo estava doida para conhecê-lo melhor? 
    Mulheres. Ou melhor, Yara.
    Mais dois pontos a frente era a sua descida. Ela retirou os fones e os guardou. E a sua mente, depois de muito tempo não ficava presa em alguém. Conhecer Jack foi como uma faísca que acendeu no seu coração, ou melhor, na sua alma. 
    Yara desceu do ônibus, e ansiava para chegar em casa para comer. Outro sentido que fazia tempo que não sentia. Fome. Ultimamente comia por necessidade, pois havia perdido o prazer até de comer. Isso preocupava muito os seus pais, Ângela e Gael. 
    - Filha, que bom que chegou! - exclamou Ângela empolgada com alguma invenção que fez na cozinha. - Você vai amar isto que preparei!
    Aquilo dava um certo medo, de repente veio em sua mente o último bolo de casca de banana que ela fez que não deu muito certo. O bolo durou meses, ninguém tinha coragem de comê-lo novamente e ao mesmo tempo de jogá-lo fora, até mesmo Ângela. Mas isso nunca foi um motivo para desanimá-la. Não mesmo, ela amava inovar, criar, replicar e saborear os alimentos. Meio que é a sua terapia. 
    O cheiro não negava, parecia estar sublime a sua receita nova. 
    - O cheiro está muito bom, mãe - comentou Yara deixando a mochila na cabine com os ganchos de bronze escuro - outro engenho que Ângela tinha feito, e deu muito certo. Deu um aspecto ainda mais rústico a casa, e evita a bagunça de deixar a mochila em qualquer canto. Justamente por isso que sua mãe resolveu fazer esta arte. 
    - É uma torta de cacau com banana - Ângela já foi explicando a receita e cada detalhe do preparo. Ela adora explicar tudo, como se realmente fosse uma obra prima. E Yara sempre escutava, de certa forma adorava escutar e saber do preparo, quem sabe um dia ela reproduza. Não que isso seja um problema, já que ela sempre anota tudo no seu caderninho de receitas, que está titulada na capa de Receitas da Ângela!!!!
    O excesso de exclamação assusta um pouco, como se fosse um aviso para reforçar que é dela e ninguém deve mexer. Por isso ninguém ousa tocar nele. 
    - Coloquei primeiro os ovos, o açúcar de coco, bem pouco óleo de côco... - assim ela foi explicando - E ficou assim! É muito simples, não acha?
    - Sim! - Yara confirmou encorajando-a e olhou para o bolo murcho a sua frente - Está com uma cara ótima. 
    - Será que devia ter crescido um pouco mais, filha? - ela perguntou avaliando o bolo em cima da mesa. 
    - Pra mim está perfeito - respondeu Yara de forma sincera - Com o tamanho da minha fome isso cai muito bem, obrigada mãe.
    Ângela não resistiu a um sorriso de alívio e já foi logo cortando o bolo para as duas. 
    - Hummm - Yara realmente gostou desse bolo, era macio, saboroso e diferente. E quando viu já tinha terminado de comer a primeira fatia. - Está delicioso! Vou pegar mais.    
    Ângela assentiu contente e a incentivou pegar mais uma fatia. E estava muito feliz, não só pela filha ter aprovado o bolo, mas por estar repetindo. Fazia tempo que não via a filha com essa fome. Se perguntava se foi a canela que havia posto no bolo.    
    - O que a dona Ângela inventou dessa vez? - Gael entrou em casa e com as narinas bem amplas - O cheiro está lá na estrada. A senhora Margarida já veio até mim salivando perguntando o que era, e quando você vai começar a vender as coisas que você faz. 
    - Querida - expressou Ângela gentilmente - Minha intenção não é vender, mas vou levar uma fatia para ela, não quero causar desejo em ninguém sem matá-lo. 
    Ela já foi levantando da cadeira e preparando a fatia para a senhora Margarida. Logo em seguida já saiu de casa.
    - Não quer vender, mas sempre divide com as vizinhas - disse Gael frustrado - Assim não nos sobra quase nada.
    Isso fez Yara rir. E Gael também não conseguiu evitar a risada. 
    - Este bolo parece muito bom - ele fez um olhar de "ainda bem". 
    - Mamãe caprichou, você vai gostar. - informou Yara passando confiança. Os dois sorriram. 
    - E como foi a aula? - perguntou Gael, como de costume.
    - Bom. - respondeu ela, mas sua cabeça voou em Jack. - Muito boa, na verdade.
    Aquele ânimo fez Gael olhar para filha para conferir se não era ironia. Mas viu que a filha não estava mentindo, só que ficou curioso, de certa forma, para saber porque foi tão boa. No entanto ele apenas expressou um olhar de contente e depois ficou focado em comer o bolo.
    - Magnífico! - expressou ele todo sujo de farelo de bolo.
    Yara ficou mais alguns minutos com o pai e depois foi até o segundo andar para ir ao seu quarto. 
    Como sempre, entrar no seu quarto trás inúmeros sentimentos a ela. Era como se ela ficasse feliz, mas ao mesmo tempo um dor preenchesse seu corpo. Uma dor que ninguém poderia entender, então ela apenas a sente com toda força e depois volta para o que estava fazendo, sem nunca contar a alguém. 
    Como naquele exato momento. Ao fechar a porta do quarto, seu olhar foi para o retrato na parede. Ela e Melanie sorrindo espontaneamente uma para a outra, uma das fotos mais lindas que elas tiraram juntas. Foi olhar para aquela foto que uma dor profunda e paralisante pulsou por cada órgão do seu corpo. 
    Seus olhos se fecharam automaticamente e imaginou as duas entrando no quarto juntas, se jogaram na cama e começaram a falar sobre tudo o que aconteceu no dia, mesmo elas estarem 90% do tempo juntas. E seria nesse momento que ela falaria de Jack, lhe explicaria a sensação de conhecê-lo e como foi intenso. Yara sorriu discretamente ao imaginar Melanie caçoando dela, por ser romântica demais. Aos poucos foi sentindo a dor amortecendo, e conseguiu sair do lugar. 
    Era torturante ver Yara sentir tanta dor e passar por isso sozinha. Ela era incrivelmente forte. Muitas vezes sua mente gritava com vontade de chorar, mas conseguia aguentar com um sorriso no rosto. 
    Melanie era sua melhor amiga, sua confidente, sua conselheira, sua terapeuta, enfim, era sua irmã gêmea. As duas compartilharam a vida totalmente unidas por dezesseis anos. Dezesseis anos foi o tempo que elas tiveram a oportunidade de ficarem juntas, e de Yara ter os melhores anos da sua vida. Ela jura até hoje que nunca será igualmente feliz na vida. Se passaram um ano e onze meses que ela partiu, e não teve um dia que Yara teve vontade de ir embora também. Sentia uma saudade enorme da sua presença, da sua risada, do seu senso de humor, da amizade e de simplesmente tê-la do seu lado. 
    Ainda vivia por causa da sua família, que tanto se esforçavam para ficarem bem por ela, e claro, por causa da medicação também.   
    - Sinto sua falta, Mara - Yara sussurrou olhando para as fotos das duas no celular. - Desculpa por ser tão fraca, mas é tão mais difícil a vida sem você aqui. Tão sem graça...
    Seu celular tocou bem na hora, fazendo-a levar um susto. Era Ayla ligando. 
    - Oi Ayla - disse Yara confusa com a ligação.
    - Oi gata, vai ter uma festinha na casa do Heitor, vamos? - ela enfatizou bem a palavra "vamos". - Vai ser bom, vai ter pouca pessoas...
    A vontade de Yara era num total igual a zero. Além disso nem se dava muito bem com o Heitor, mesmo sendo o namorado da amiga. Ele tinha uma chata mania de se achar o homem mais incrível da Terra. 
    - Não sei... já estou de pijama.
    - Mentirosa, sei que nem tomou banho ainda - Ayla a conhecia mesmo. Para ser mais exata, elas se conhecem há sete anos. - Vai ser bom, Yara. Ela gostaria que você fosse. 
    Bem, aquilo meio que mexeu com seu coração. Por um instante ela tentou imaginar o que Melanie acharia disso. No fundo saberia que Melanie ia querer ficar em casa vendo filme e comendo brigadeiro. Mas tentou pensar na situação de que ela queria o seu bem, e ficar em casa revendo fotos antigas não seria uma evolução.
    - Que horas começa? - Yara pergunta.
    - Agora! Já estou te esperando! - exclamou ela e desligou a ligação.
    Yara se arrependeu no mesmo instante.    
    
    
    
    
    
     
    
    
    

    



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