O sol apareceu e com ele realçou toda a poeira que flutuava no ambiente. Não era pouco.
Tossiu discretamente para que Alice não percebesse que estava levemente - ok, totalmente - incomodada com a sujeira do lugar.
Como ela conseguia ficar ali?, se perguntava a todo instante quando virava a cabeça e via um livro comido na poeira.
- Você não pretende vendê-los? - ela opinou com a voz gentil para não magoar a amiga com aquilo - Ou talvez doar?
Acho que doar seria mais a cara do Tom.
Ela não respondeu nada. Era o esperado no fim.
Desapegar das coisas do Tom não estava sendo algo agradável para ela.
Mas até achava melhor entregar os livros para alguma pessoa que aproveitasse realmente do que deixá-los jogados pelo quarto cobertos de poeira. Eles poderiam ser úteis para alguém.
Bem, mas não seria eu que lhe diria isso. Ou deveria?
Eu era a melhor amiga dela, acredito que eu deva falar essas coisas. Melhor do que se fosse a mãe dela. Com certeza.
No quarto deviam ter mais de trezentos livros.
Tom era um ótimo escritor e amante de livros. Foi o que mais Alice se encantou por ele, já que ela achava lindo e charmoso quando ele sentava na poltrona, colocava seu óculos redondo, as vezes deixava a vitrola tocando e lia um dos seus livros.
Essa era uma memória encantadora do seu amigo.
Aquele lugar tinha muitas lembranças dele, e estava meio que mexendo com seu coração.
- Você está chorando, Meg? - perguntou Alice amigavelmente ao se virar para mim para dizer algo, mas parou quando olhou para o meu rosto.
Ok. Sou uma péssima amiga. Não consigo ser forte.
- Não vende os livros. Nem os doa... Foi uma péssima ideia - eu disse no fim das contas.
Ali estava Tom. Naqueles livros. Por baixo da poeira, claro.
Olha só, à direita estava a obra de Robert Frost, ele adorava esse poeta. Peguei o livro na mão e fechei os olhos. Duas lágrimas caíram sobre o livro, umedecendo a poeira.
- "Posso resumir em três palavras tudo o que aprendi sobre a vida: a vida continua." - Alice versou a frase do poeta.
Lembro como se fosse hoje o dia em que Tom nos disse essa frase.
Era uma noite chuvosa, estávamos em seis pessoas, bebendo vinho tinto, rindo sobre os momentos da vida e muito felizes. E eu disse que não queria que aquilo acabasse. Momentos como aquele.
- Meg, lá vem você com suas melancolias - brincou Joana, uma amiga nossa da faculdade. - Somos jovens, vamos poder curtir muito ainda!
- Vocês terão que me aguentar muito, sinto-lhes dizer, caros amigos - atestou Gael e depois satisfez-se de um gole de vinho para intensificar a notícia. Nos fazendo rir, mais ainda. Ele diz isso porque sabe o trabalho que é ser amigo de um vocalista de banda. Quase uma banda nacional.
E então Tom, sempre muito sábio, nos disse a frase.
Bom, no momento, trouxe-nos muito alívio.
A vida continua. Ela tem vários significados. Podia ser até uma polissemia.
E mesmo depois da sua partida para o outro lado, ainda nos ensina.
Sequei as lágrimas.
- Posso pegar esse livro emprestado? - perguntei agora de cara limpa e de certa forma mais forte. Até porquê a vida continua.
- Claro. - respondeu ela com seu sorriso doce. O sorriso que encantava a todos. - É seu.
Agradeci com os olhos e a abracei.
Nenhum comentário:
Postar um comentário